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Após o casamento

A união de Isaque e Rebeca, no que se refere às decisões a tomar até chegar ao casamento, teve como alicerces, princípios muito importantes (como vimos na parte 1). Com a consumação do casamento, percebemos que esses princípios ainda se mantinham, tendo eles uma relação amorosa e cúmplice, e sendo companheiros um para o outro (como vimos também na parte 1). Vamos agora extrair alguns princípios, da relação deles enquanto casal unido pelo matrimónio, aprendendo com as (boas e más) práticas deste casal:

Principio 1 – Mantendo a relação com Deus, após o casamento

Isaque e Rebeca “falavam a mesma língua”, ou seja, por se terem unido a alguém que cria no mesmo Deus, e se relacionava também com Ele, ambos tiveram a liberdade de manter a sua comunhão / relação individual com Deus. Eles mantiveram Deus nas suas vidas, e o facto de terem um conjuge a quem dar atenção, não os levou a deixar de ter tempo para estarem na presença de Deus. Em Genesis 25:20-21 lemos: “E era Isaque da idade de quarenta anos, quando tomou por mulher a Rebeca, filha de Betuel, arameu de Padã-Arã, irmã de Labão, arameu. E Isaque orou insistentemente ao Senhor por sua mulher, porquanto era estéril; e o Senhor ouviu as suas orações, e Rebeca sua mulher concebeu.” Vemos que Isaque mantinha a sua relação com Deus, mediante oração, mas podemos ver nos Vers. 22 e 23, que também Rebeca mantinha essa relação: “E os filhos lutavam dentro dela; então disse: Se assim é, por que sou eu assim? E foi perguntar ao Senhor. E o Senhor lhe disse: Duas nações há no teu ventre, e dois povos se dividirão das tuas entranhas, e um povo será mais forte do que o outro povo, e o maior servirá ao menor.” Rebeca percebeu que algo diferente se passava com os seus filhos, ainda no ventre, e surgiu-lhe uma preocupação. O que fez Rebeca com essa preocupação? Ela buscou a Deus. E perante a sua busca, Deus respondeu-lhe, esclarecendo-a. Tanto Isaque quanto Rebeca, em momentos de maior aflição, buscaram o seu socorro em Deus.

Principio 2 – Unidos na vida, em realizações práticas e em oração

Olhando para este último versículo (27), percebemos também que Isaque orou pela sua esposa, movendo-se por ela. Esta atitude mostra amor (Oramos por alguém se e quando esse alguém move o nosso coração, em amor) e, no caso, a oração, era também acerca de um projeto comum, um projeto do casal: o aumento da sua família. Por esse projeto, Isaque não orou uma vez nem duas, pois é referido que orou insistentemente, ou seja houve perseverança em orar. O casal tinha como objetivo o aumento da família, e por isso puderam unir esforços e perseverar em oração. O problema da esterilidade era de Rebeca, mas Isaque orou por ela, de modo insistente. Deus ouviu e Rebeca ficou grávida do projeto que não era de um mas de ambos: o projeto família em crescimento. Eclesiastes 4:10 afirma: Porque se um cair, o outro levanta o seu companheiro mas ai do que estiver só; pois, caindo, não haverá outro que o levante;” - Esta é uma das funções do marido e da mulher, um para com o outro: unirem-se na dificuldade, suportar, apoiar, cuidar. E o vers. 11 diz-nos: “Também, se dois dormirem juntos, eles se aquentarão; mas um só, como se aquentará?” – Os membros de um casal são meio de suprir algumas necessidades um do outro, e para tal precisam de fazer dos projetos de um, os projetos de ambos, apoiando um ao outro. Essa é uma das razões porque é tão importante terem objetivos comuns na vida. O Vers 12 continua: “ E, se alguém prevalecer contra um, os dois lhe resistirão; e o cordão de três dobras não se quebra tão depressa.”- O casal, sendo composto por duas pessoas, funciona como se fosse uma, protegendo e defendendo-se um ao outro. E isto deve acontecer nas realizações práticas da vida, no dia-a-dia, e também na convergência em oração.

Principio 3 – Diferenciar e não discriminar os filhos

A Bíblia relata-nos o nascimento dos filhos deste casal em Genesis 25:24-27: ” E cumprindo-se os seus dias para dar à luz, eis gêmeos no seu ventre. E saiu o primeiro ruivo e todo como um vestido de pêlo; por isso chamaram o seu nome Esaú. E depois saiu o seu irmão, agarrada sua mão ao calcanhar de Esaú; por isso se chamou o seu nome Jacó. E era Isaque da idade de sessenta anos quando os gerou. E cresceram os meninos, e Esaú foi homem perito na caça, homem do campo; mas Jacó era homem simples, habitando em tendas.”

Vemos que esta família não cresceu, um filhote por vez, mas recebeu dois de uma vez só. Todavia, mesmo sendo gémeos, os irmãos eram profundamente diferentes, não apenas nas suas caraterísticas físicas, mas também nas suas personalidades, que ditavam as suas inclinações. Enquanto Esaú era virado para a caça, e gostava de andar pelo campo, Jacó era simples, e “caseiro”. Ora, sabemos que todas as famílias têm alguma diversidade, que pode ser muito ou pouco acentuada. Cabe aos pais discernirem essa diversidade e aprenderem a lidar com ela, respeitando-a. Seria com certeza contraproducente que, Isaque e Rebeca, agissem de modo igual com dois filhos tão distintos. E na verdade, Deus tinha propósitos muito diferentes para cada um, os quais foram confiados a Rebeca, como vimos nos vers. 22-23, em resposta à sua oração. Portanto, após a experiência de paternidade / maternidade, este casal teve grande dificuldade em perceber a diversidade dos seus filhos, sem tomar partido de um deles, não conseguindo agir com equidade para com eles. E este é um grande desafio para todos os pais: Cada pai e mãe é um ser humano que sente maior ou menor afinidade com o caráter e as inclinações de um ou outro filho, em determinados momentos, mas isso nunca pode ser motivo para os tratar de modo desigual em termos de justiça, cuidados, atenção e proteção. A diferenciação não significa discriminação. É importante tratar cada um com respeito à sua individualidade, mas não beneficiar um, prejudicando outro.

Principio 4 – A União do Casal como base da Educação

Infelizmente, Isaque e Rebeca não conseguiram respeitar a individualidade dos seus filhos, e cada um, foi injusto com um dos filhos, devido às suas preferências. Vejamos o vers. 28-34 de Gen. 25: ”E amava Isaque a Esaú, porque a caça era de seu gosto, mas Rebeca amava a Jacó. E Jacó cozera um guisado; e veio Esaú do campo, e estava ele cansado; E disse Esaú a Jacó: Deixa-me, peço-te, comer desse guisado vermelho, porque estou cansado. Por isso se chamou Edom. Então disse Jacó: Vende-me hoje a tua primogenitura. E disse Esaú: Eis que estou a ponto de morrer; para que me servirá a primogenitura? Então disse Jacó: Jura-me hoje. E jurou-lhe e vendeu a sua primogenitura a Jacó. E Jacó deu pão a Esaú e o guisado de lentilhas; e ele comeu, e bebeu, e levantou-se, e saiu. Assim desprezou Esaú a sua primogenitura. “

Percebe-se nitidamente que Isaque criou maior afinidade com Esaú, pois tinham a caça em comum. Já Rebeca criou maior afinidade com Jacó que, provavelmente, ficando mais por casa, acabava por passar mais tempo com a mãe e, eventualmente, até a ajudaria na lida. Assim, cada um foi cultivando mais a relação com um dos filhos, baseado na afinidade existente, e acabou por negligenciar a relação com o outro filho. Esta preferência distinta que cada um tinha, levou a que tivessem grande dificuldade em se manter unidos na função de educar, perdendo o foco da união na educação dos filhos. A própria comunicação entre Isaque e Rebeca falhou redondamente, pois se Deus falara a Rebeca sobre os propósitos distintos que tinha para cada filho, eles deviam estar unidos, cooperando para os propósitos de Deus! Se a comunicação tivesse sido correta, poderia ter alterado o modo como tudo sucedeu e o impacto negativo que teve na vida de cada um dos membros desta família.

O processo educativo necessita de dois elementos que têm de agir alinhados: pai e mãe. Quando um se demite do seu papel, tal torna-se notório na vida dos filhos. Se analisarmos Esaú, o preferido de Isaque, entendemos que se tornou rude, desprovido da sensibilidade, negligenciando as “coisas espirituais”, a ponto de se envolver com mulheres fora do seu povo, e indo assim contra o que Deus instituíra, causando desgosto a seus pais (ver Gén. 26:34-35); Quanto a Jacó, o preferido de Rebeca, vivia na ânsia de ocupar um lugar que, tendo-lhe sido dado por Deus, dispensaria a utilização de artimanhas. Ele não permitiu que o seu lugar lhe fosse dado, mas usurpou-o Na verdade, ambos se tornaram homens inseguros, pois não havia alinhamento, cooperação, auxílio mútuo na relação de seus pais, quanto ao processo educativo de cada um deles, e um tinha muita influência de Rebeca e influência quase nula de Esaú, sucedendo o contrário com o outro. Acredito que não só cada um dos progenitores tinha nítida preferência por um dos filhos, como cada um agia de modo a ser, ele mesmo, o preferido do filho que preferia. O problema é que quando pai e mãe deixam de agir como uma equipa coesa, e passam a agir, individualmente, cada um com o objetivo de ser o preferido de um filho, destroem a coesão tão necessária para atingir os melhores resultados na educação dos filhos e sua preparação para o futuro, acabando por lhes passar valores errados.

O resultado da inexistência de união entre Isaque e Rebeca, no que respeitava à educação dos filhos ficou à vista: Jacó tornou-se manipulador, utilizando os seus trunfos (no caso, o facto de saber cozinhar bem), e Esaú tornou-se negligente, trocando uma bênção preciosa como era a primogenitura, por um prato de lentilhas.

Principio 5 – Manter a lealdade na relação do Casal

A preferência demonstrada pelos filhos, levou ainda à deslealdade. Por um lado, a Bíblia não relata se Rebeca terá ou não partilhado com o marido os propósitos que Deus falara ao seu coração para os seus filhos, mas por outro também não sabemos se foi Isaque quem resistiu ao que Deus falara, ou quem estava mais desatento aos propósitos divinos. A verdade é que os propósitos de Deus sempre aconteceriam, mas poder-se-iam evitar algumas mágoas familiares.

Em Génesis 26, é relatada uma mudança na vida deste casal, pois Deus conduz Isaque a morar em Gerar. A partir do vers.6, é contada a vivência do casal naquele lugar: Rebeca era uma mulher muito bonita e Isaque temia que ela suscitasse desejo noutros homens. Por essa razão, em vez de proteger a sua esposa, Isaque foi desleal, tentando apenas proteger-se a si próprio, mentindo ao dizer que ela era sua irmã, com receio que o matassem para ficar com ela. Todavia essa situação foi descoberta pelo rei Abimeleque, e acabou, por misericórdia de Deus, por se reverter em proteção (veja-se os vers. 6-33).

Mais tarde, já fora daquele lugar, também Rebeca foi desleal para com Isaque. Se observarmos a passagem contida em Génesis 27:5-17, percebemos que Rebeca impulsionou Jacó a enganar e mentir a seu pai a fim de obter a benção que Isaque, naquele momento, destinara entregar a Esaú. Ao ouvir o que Isaque pretendia fazer, Rebeca, mulher determinada e ciosa das suas convicções quanto ao futuro de Jacó, caiu em deslealdade para com o seu marido. A sua preocupação em certificar-se de que a bênção ia para Jacó, seu preferido, levou-a a romper com a idoneidade, induzindo Jacó a enganar o próprio pai, e abdicando da transparência tão necessária a qualquer família. Vejamos os vers. 6-10: Então falou Rebeca a Jacó seu filho, dizendo: Eis que tenho ouvido o teu pai que falava com Esaú teu irmão, dizendo: “Traze-me caça, e faze-me um guisado saboroso, para que eu coma, e te abençoe diante da face do Senhor, antes da minha morte. Agora, pois, filho meu, ouve a minha voz naquilo que eu te mando: Vai agora ao rebanho, e traze-me de lá dois bons cabritos, e eu farei deles um guisado saboroso para teu pai, como ele gosta; E levá-lo-ás a teu pai, para que o coma; para que te abençoe antes da sua morte.” Não bastando a Rebeca a iniciativa de levar Isaque a enganar o pai para obter o que pretendia, elaborando ela própria o plano, ainda engendrou forma de tudo correr do modo planeado, cozinhando, de modo absolutamente cúmplice, o guisado e certificando-se de que o pai não se apercebia de estar perante o filho errado, como lemos nos vers. 15-17: “ Depois tomou Rebeca os vestidos de gala de Esaú, seu filho mais velho, que tinha consigo em casa, e vestiu a Jacó, seu filho menor; E com as peles dos cabritos cobriu as suas mãos e a lisura do seu pescoço; E deu o guisado saboroso e o pão que tinha preparado, na mão de Jacó seu filho.”

Deste modo, ao atuar fora das instruções de Deus, e dos princípios elementares que estão estabelecidos por Ele, o casal fomentou não apenas a desunião do seu casamento, mas também a desunião da sua família, vindo a pagar um elevado preço: A desagregação da família, de tal modo que Rebeca não viveu sequer para voltar a ver o seu preferido, Jacó.