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As igrejas devem ser bem pastoreadas, mas elas não são empresas. Quando uma igreja atinge um certo número de pessoas, tem um potencial humano muito forte; em primeiro lugar uma quantidade de talentos e dons disponíveis a custo zero, o responsável da igreja passa a ter ao seu dispor, pessoas voluntárias, para servirem, assim como também volume financeiro, fruto da generosidade de todos os membros da igreja. Quando esta generosidade e voluntariedade assenta no Evangelho genuíno de Cristo, torna-se saudável e necessária, a igreja de Cristo tem uma função muito importante, de congregar pessoas em amor, sendo edificadas no Evangelho, fortificadas na fé, apoiadas nas suas necessidades, apoiadas com amizades genuínas com uma missão comum de anunciar o Evangelho a todas as criaturas que se cruzam em nossos caminhos e relacionamentos.

É errado ter volume financeiro? Não, desde que esse volume financeiro seja direccionado para o que o Evangelho manda direccionar. Ao ler o novo testamento, vemos o modo generoso como várias mulheres serviam a Jesus Cristo com as suas fazendas (Lucas 8), não seria possível sustentar durante 3 anos, os 12 discípulos e as suas famílias, sem esse apoio, pois eles tinham deixado tudo para seguir a Jesus Cristo. Mais tarde, vemos a forma como os discípulos e os apóstolos de Jesus Cristo se ajudavam entre eles e entre as igrejas, a escritura nos diz: “dignos são os trabalhadores do seu salário e quem prega o Evangelho deve viver do Evangelho (I Cor.9:14)”, diz também, que não havia ninguém com necessidades, pois, vendiam-se propriedades e distribuía-se pelos que tinham necessidade e assim as famílias viviam apoiadas, sem esquecer os pobres, as viúvas, os órfãos.

O problema surge, quando os números começam a fascinar, ao ponto de usá-los de modo errado com intenções pouco claras. O grande problema dos ricos é depositarem a sua confiança nas riquezas, no dinheiro e na influência que o dinheiro pode dar. Actualmente,  oiço muitas vezes pessoas a dizerem: “As igrejas são todas iguais, elas querem é dinheiro”. Quem fala assim, tem e não tem razão. Tem razão porque de facto, a má fama contagia rapidamente de forma muito negativa,  as igrejas têm má fama, porque algumas têm um modo de operar que escandaliza, fruto de se deixarem fascinar pelos números, que levaram a práticas muito pouco claras e duvidosas.

Não tem razão, porque quem fala: “As igrejas são todas iguais, elas querem é dinheiro”, esse, no fundo também quer dinheiro, também ama o dinheiro. Todos sabemos que o dinheiro é essencial e necessário para qualquer actividade na nação, nas empresas, nas associações, nas famílias e também nas igrejas, sem dinheiro as coisas pouco ou nada avançam, seja a que nível for.

Se a pessoa não quiser dar o dinheiro, então não dê, não precisa de andar a dizer que são todos iguais, porque isso não é verdade. Graças a Deus há muitas boas igrejas, assim como há muitas boas empresas e famílias em Portugal que cumprem as suas obrigações de forma honesta e que têm dinheiro ganho de forma justa e honesta, como também, infelizmente há muitos bandidos. Temos de aprender a diferença e não catalogar a todos como iguais. 

A bíblia conta a história do rei David que a certa altura teve a tentação de mandar fazer o censos, isto é, contar o povo, fazer uma base de dados com toda a informação detalhada. Aparentemente, não há mal nisto, mas neste caso específico, foi um problema, porque o rei David, ao ter acesso à informação recolhida, subiu-lhe ao coração dele vaidade e achou-se capaz de tudo, o seu lado narcisista tomou domínio do seu ser, a confiança que até então estava em Deus, passou a estar nele mesmo! Passou a ser temido por muitas nações, devido ao enorme exército que estava sob seu comando! 

Este é o grande problema do acesso à informação! Quem tem informação especifica e controle de base de dados, tem nas mãos, poder, para exercer domínio. Este poder, tanto pode dar para o bem, mas também para o mal. Normalmente dá para o mal. Foi isso que eu vivi durante uma parte dos anos que estive na igreja Maná. O fascínio pelos números virou-se para o mal. 

Certo dia, fomos visitados por um pregador de nome John Avanzini, para quem o conhece ou já leu livros dele, este pregador, fala muito sobre dinheiro. Tudo o que ele vê na bíblia é dinheiro. Nesta visita a Portugal, ele se reuniu com o presidente da igreja Maná e estavam presentes alguns bispos e eu incluído.

Ele começa a dar ideias a nós, de como poderíamos usar a informação e o marketing para obter resultados financeiros, segundo ele, quanto mais dinheiro a igreja tiver, mais pode avançar no mundo, sempre com a desculpa de: “pregar o Evangelho”. Segundo ele, para pregar o evangelho é preciso comprar aviões, pois isso trás uma grande glória para Deus, que seus ministros andem de avião particular, segundo ele, Jesus Cristo nos quer a todos ricos, pois sem dinheiro ninguém nos ouve, ele lembrava que Jesus Cristo vestia-se do melhor, andava num jumento, brincava dizendo: “0 Km”, comparando o jumento a um carro novo ou se Jesus andasse hoje aqui na terra, seria um avião novo. Ele enfatizava a questão do avião, porque ele sabia que o presidente da igreja Maná desejava ter um avião melhor. 

Ensinou-nos a usar o sistema de base de dados, que ele próprio, para ele mesmo, já usava há alguns anos, explicou que enviava cartas com pedidos de ofertas em troca de orações escritas ou frascos de óleo ungido, ou então, enviava pequenos livros gratuitos em troca da pessoa enviar a tal oferta que pedia na carta. Ele andava de igreja em igreja, de país em país, pedia os nomes e as moradas dos membros das igrejas que o convidavam, para depois enviar as tais cartas. Para além da oferta que recebia por ir pregar onde o convidavam, também obtinha o mais importante, a informação que deseja para depois andar a pedir dinheiro. Infelizmente esta moda ou método, que nasceu nos Estados Unidos, usado por vários pregadores bem conhecidos a nível mundial, tais como: Morris Cerulo, Benny Hinn, Mike Murdock, Kenneth Copeland, Kenneth Hagin, Jerry Savele, e infelizmente tantos outros! Esses e outros foram modelos para o Brasil, onde o método foi sendo apurado ao ponto, que infelizmente fazem melhor a técnica do que os americanos. E não são só os pregadores, são bandas de música, músicos Gospel que cobram fortunas para irem cantar ás igrejas. 

Quando John Avanzini acabou de falar as ideias e as técnicas que usava, ficamos a olhar uns para os outros, e eu pensei para mim: “Não acredito no que estou a ouvir, graças a Deus que o meu pastor não pensa assim”. Mas infelizmente, enganei-me! Esta conversa foi o rastilho que incendiou o que irei escrever daqui para a frente. 

“E por avareza farão de vós negócio com palavras fingidas; sobre os quais já de largo tempo não será tardia a sentença, e a sua perdição não dormita”. (2 Pedro 2:3)

 Mas o facto é que, com o tempo a ideia ficou a matutar na cabeça do líder da igreja Maná.

“Se eles fazem, porque não nós, pois já temos tantas igrejas e tantas pessoas?”

A tentação é grande, o fascínio pelos números é forte, qualquer um de nós passaria pela tentação! Só há dois caminhos; resistimos ou cedemos à tentação, neste caso cedeu-se à tentação. 

O que vou relatar tem o propósito de ajudar o leitor a entender uma das causas, que eu considero o porque é que uma igreja, com um potencial tão grande e nobre caiu na tentação dos números e levou à desgraça a vida espiritual de muitas pessoas. 

Estas minhas memórias tem o objectivo de tocar com o dedo na ferida, para alertar as gerações futuras de um dos males que mais destrói uma igreja, porque as gerações passadas, muitas estão doentes espiritualmente e será muito difícil se levantarem! Só um milagre de Deus! Eu sei, que ao expor o que irei expor, muitos não irão compreender e vão pensar que eu estou a “cuspir no prato que comi”, mas é um risco que eu devo correr, tenho a obrigação moral de correr, estou cansado de ver pessoas fantásticas a sofrerem por um Evangelho que não é mais o Evangelho, já basta o tempo que participei deste problema, pois tenho a consciência que magoei a muitos. 

Com o tempo, a igreja Maná desenvolveu a ideia das bases de dados, toda a informação era colocada, sabíamos o número exacto de bispos, pastores, presbíteros, diáconos e de irmãos em Cristo. Foi necessário criar um departamento a nível internacional para gerênciar as bases de dados, pois tínhamos igrejas e grupos familiares em Portugal, na Europa, em África e no Brasil. Podem imaginar o poder que se tinha em mãos?! 

A igreja que até então vivia pela fé, dependia de Deus e da generosidade dos membros, cai na tentação de passar a viver por uma economia, que eu chamo de: “economia garantida”. Isto é, passamos a ter uma fonte de receitas garantida, não mais pela generosidade, mas pela obrigação! Criou-se a ideia do Centro de Treino, um organismo semi-presencial de treino da liderança, onde incluía um universo de 10.000 pessoas com títulos de : Bispo, Pastor, Presbítero e Diácono. Todas estas pessoas, que na maioria eram voluntários, serviam nas suas igrejas locais com generosidade, alegria, dando o seu precioso tempo a servir as pessoas e a igreja, viram-se obrigadas a pagar uma cota mensal. Para justificar o fim, usa-se versículos bíblicos, como os de  Timóteo: “os que servem a Deus, devem servir com excelência e apresentarem-se como obreiros aprovados”.

Para além dessa cota, esse universo de 10.000 pessoas tinham de adquirir todos os livros e manuais que o ministério produzia, inclusive, adquiriu-se com o tempo, uma gráfica, tal era o volume de produção para alimentar este universo.

A aquisição dos livros e manuais era obrigatório, no caso dos casais, o homem tinha de ter os seus livros e manuais e a mulher também, não podiam partilhar. 

Entretanto, todos os anos este universo é reconsagrado, isto é, de acordo com as suas prestações de serviço, uns são promovidos e outros despromovidos em seus títulos, como também entravam membros novos consagrados. Cada membro novo passaria a ter que cumprir com todas as regras do Centro de Treino, bem como os respectivos pagamentos. 

Para cada cerimónia de reconsagração ou novos consagrados, era necessário adquirir indumentárias, tais como, capas, estola, tudo tinha um custo que era pago por cada membro reconsagrado ou consagrado.

Todo este treino teria que ser feito usando a tecnologia de satélite e através do projecto ManaSat, todos foram obrigados a adquirir antenas parabólicas e os seus respectivos receptores, a preços absolutamente impróprios para consumo. 

Basta fazer as contas, multiplicar 10.000 a 12.000 pessoas a pagarem as suas cotas mensais, multiplicando por 12 meses, chega-se a uma ideia de valores anuais, que esta “economia garantida” garantia. Para além disso, tinha-se as receitas dos  manuais, livros, capas, estola, parabólicas, receptores, etc...o volume de movimentação financeira é bastante grande, mesmo tento grandes despesas, compensava em muito. 

Com o tempo, a ideia do John Avanzini ao pé desta, tornou-se um bebé! 

Só que, ninguém imaginava o problema que a ideia iria criar, as pessoas começaram a cansar e ao mesmo tempo a pensar: “algo não está bem, tenho de pagar para servir a Deus?”

Muitos começam a desistir, outros deixam de pagar a cota, pois em tempos de vacas gordas todos têm dinheiro, mas em tempos de vacas magras, começam os problemas, qualquer pagamento é um peso para o orçamento das famílias. 

Os valores mensais começam a entrar atrasados, e a estrutura que foi montada, que alimenta esta máquina, tais como: prédios, satélite, televisões, rádios, gráfica, trabalhadores a tempo integral começa a ficar pesada.

Em vez de se parar e repensar: “Onde estamos a falhar?” Não, impõe-se mais, faz lembrar os governos, aumenta-se ainda mais os impostos. Surgiu a ideia de passar o onus para as igrejas locais, uma igreja tinha 100 pessoas na base de dados, 100 x Y = Z, esse valor de Z é o valor que a igreja local passa a pagar à administração da igreja Maná todos os meses. Se as 100 pessoas pagavam ou não, atrasado ou não, a administração não queria saber, o pastor local que trate disso. Assim, cada pastor local deixa de ser pastor e passa a ser cobrador de cotas para não sofrer dano com as ofertas que recebia. Pois se as 100 pessoas não pagassem, ele teria de pagar com as ofertas da igreja. A administração enriquecia e as igrejas empobreciam ao ponto de não haver dinheiro para comprar um parafuso! Faz lembrar certas empresas no mundo, que acabam com o tecido produtivo em prol de uma administração gorda e rica. Ora isto, só pode dar mau resultado! 

Para piorar ainda mais, os pastores locais passaram a usar uma táctica nova; para compensar as falhas nos pagamentos, eles convidavam todas as pessoas, incluindo os novos convertidos, a entrarem no Centro de Treino, assim se compensava as falhas dos que não pagavam. Davam-se títulos a qualquer pessoa, de repente, jovens, novos convertidos de 1 a 2 meses de convertidos eram consagrados a diáconos, presbíteros e até pastores, não admira que começaram a abrirem igrejas com pessoas deste calibre a ensinarem a outros aquilo que eles mesmo nem sabiam para eles, tornou-se numa: “pescadinha de rabo na boca”. Toca abrir igrejas por todo o lado com pessoal assim, as igrejas tornam-se centros de treino. Já ninguém ligava ao que o Evangelho recomenda, sobre a vida daqueles que desejam servir a Deus.  O resultado disto tudo deu numa “feira de vaidades”, os títulos. Descobriu-se que as pessoas gostam de títulos, de reconhecimento e valorização. Este é um problema na cultura portuguesa, todos querem ser doutores, engenheiros...a igreja Maná dava essa importância e assim as pessoas se alegravam com os títulos de: “sr.Bispo, Sr.pastor, etc.” Vale a pena pagar todos os cursos e escolas bíblicas, porque no fim recebemos o Título. Iniciou-se uma luta de classes dentro da própria igreja, muitos perderam grandes amizades por causa dos títulos. Alguém um dia disse: Consagrar uma pessoa ao ministério sem ter as condições que o Evangelho exige é pior do que ter o diabo dentro da igreja. Só dá problemas! 

A partir daqui, tudo pode acontecer com esta igreja e infelizmente tenho visto a acontecer o que eu não desejaria que acontecesse. Eu consegui sair da igreja Maná e do sistema montado, que infelizmente eu ajudei a montar. Não foi fácil, foram muitos anos, anos da minha juventude, dei tudo o que tinha, acreditava a todo o tempo que fosse possível o arrependimento, assim como foi possível o arrependimento do rei David. Mas até hoje, não vejo qualquer pingo de arrependimento. Tenho muita pena. Mas aprendi, doeu muito, mas aprendi e não quero mais viver o que vivi e ajudei a viver. Alguns colegas meus que saíram da igreja Maná não conseguiram que a igreja Maná saísse do coração deles. Daí que, uns saíram e copiam os mesmos métodos, outros saíram, mas não aguentaram a ausência desta adrenalina e voltaram para a igreja Maná. Dou graças a Deus, porque eu e outros poucos conseguiram vencer, consegui purgar-me deste espírito. Talvez esteja a pagar um preço muito alto, sei que não posso apagar estes anos da minha vida, sei que muitos não aceitam o que estou a fazer, ao escrever o que escrevo, mas pouco me importa, passado estes anos todos, escrevo estas memórias, porque são ricas, porque elas nos ensinam e quem sabe, no futuro, gerações novas possam aprender e possam resistir à tentação do fascínio pelos números. As pessoas não são números!   

É preciso um profundo arrependimento! Pois um dia, todos irão dar contas a Deus.

O rei David arrependeu-se, mas mesmo assim, muitos sofreram.

(I Crónicas 21)

 

Memórias de 30 anos de Evangelho – José Fidalgo

03/01/2020